Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Últimas Notícias > UFSB debateu Direitos Humanos em simpósio
Início do conteúdo da página

UFSB debateu Direitos Humanos em simpósio

  • Publicado: Quarta, 12 de Dezembro de 2018, 15h08
  • Última atualização em Quarta, 12 de Dezembro de 2018, 15h12
  • Acessos: 593

A reitoria da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) promoveu, na última segunda-feira, 10 de dezembro, o Simpósio 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O evento ocorreu na modalidade mesa-redonda, que teve como tema “O papel da universidade na garantia dos Direitos Humanos das minorias sociais.” Como debatedores(as), foram convidados(as) os(as) especialistas e ativistas sociais Sylvie Debs, Ademar Bogo, Dodi Leal, Casé Angatú e Célia Regina da Silva.

A solenidade de abertura foi conduzida pela reitora da UFSB, professora Joana Angélica Guimarães da Luz, que afirmou que o evento foi pensado "como forma de reafirmar o lugar da universidade na garantia do debate público sobre essa temática e também de confirmar nosso apreço pelo documento que é a Declaração Universal dos Direitos Humanos."

 

 

 

 

“Por uma ética da hospitalidade”

A mesa-redonda iniciou com a participação da professora Sylvie Debs, professora visitante da UFBa e coordenadora da Casa Brasileira de Refúgio - CABRA, projeto voltado para o apoio e proteção a escritores e artistas exilados, em situação de risco em seus países de origem.

A professora exibiu um vídeo de sua autoria sobre a cidade de Estrasburgo para explicar a ideia de "cidade-refúgio" elaborada pelo filósofo Jacques Derrida, que fundamenta o projeto da Rede Internacional de Cidades-Refúgio (Icorn), organização independente criada em 2006 e sediada atualmente na Noruega.

Sylvie Debs explicou as razões para a escolha de cidades como refúgio e não países e mostrou dados sobre a atuação da rede Icorn, que já abrigou mais de 190 artistas em situação de risco: escritores(as), fotógrafos(as), cartunistas, jornalistas, acadêmicos(as), editores(as) e tradutores(as).

"Uma das marcas do projeto é a interculturalidade. A pessoa hospedada passa a ser uma espécie de embaixadora de seu países de origem e, depois da experiência, também passa a ser embaixadora do país que a acolheu em seu próprio país", destacou Sylvie Debs.

 

“Não é com pena que se faz luta, é com revolta, com indignação”

Após a fala de Sylvie Debs, o professor Ademar Bogo, professor universitário, doutor em Filosofia, autor de vários livros e artigos sobre diversos temas associados aos movimentos sociais e à educação do campo.

O professor foi contundente nas críticas à guerra silenciosa que ocorre no Brasil, ressaltando a violência autorizada pelo Estado e cometida pelas elites contra as populações negligenciadas pelas políticas públicas. Denunciou o genocídio da juventude negra e ressaltou, a partir de Milton Santos, o questionamento sobre quem tem direito à cidadania no Brasil e quem não tem.

No que diz respeito à relação entre movimentos sociais e universidade, o professor Bogo reconheceu que sempre houve parceria, pois “a universidade sempre formou consciência para os movimentos sociais, embora sempre com contradições.” Como estratégia para o atual momento, afirmou que “é hora de pegarmos a Declaração dos Direitos Humanos e transformar em ações concretas”.

O professor Bogo concluiu sua fala com palavras de esperança e motivação, ressaltando o papel da arte como crítica, mas também como irradiadora de respostas para o futuro. Encerrou com a declamação de um poema de sua autoria, convocando para outros modos de atuação política.

“É preciso acabar com a violência institucional que pessoas trans vivemos no espaço acadêmico”

Dodi Leal é a primeira docente trans da UFSB, lotada no Campus Sosígenes Costa. E uma das menos de dez que têm doutorado no Brasil, como sinalizou em sua fala pessoal e contundente. Doutora em Psicologia Social, Dodi tem vasta produção acadêmica, artística e forte militância social em favor dos direitos das pessoas trans.

A professora iniciou sua fala com um texto de Linn da Quebrada, artista e ativista de São Paulo. Criticou a expressão 'minorias', por não ter sido criada por grupos não hegemônicos e por corroborar a minorização. “Melhor seria se a referência aos grupos sociais não hegemônicos se desse com esta expressão, que denota especificamente que há marcadores de desigualdade e que grupos que não se inscrevem na branquitude, na cisgeneridade e nas classes dominantes somos maioria quantitativamente, mas não hegemônicos politicamente em relação aos grupos dominantes”, explicou.

Dodi disse ainda que a universidade precisa avançar na eliminação da violência institucional contra as pessoas trans, apesar de algumas ações significativas.

Revelou ao público que, “durante os governos de Lula e Dilma, a expectativa de vida de pessoas trans era de 36 anos, enquanto que de pessoas cisgêneras é de 82 anos.” E lançou a pergunta: qual será a expectativa de vida de pessoas trans a partir de janeiro de 2019?

A professora finalizou sua participação com a leitura do texto “Estética, direito humano”, de Augusto Boal.

“O futuro de 2019 começou faz tempo”

Casé Angatú Xukurú Tupinambá é indígena, historiador, mestre e doutor, professor universitário. É autor de várias obras sobre história e culturas indígenas e milita pelos direitos do seu povo. Em sua fala, intitulada “Declaração dos Direitos Humanos e os 518 anos de direitos negados”, Casé apresentou, por meio de uma série de dados e outras referências, as principais questões das populações indígenas no Brasil atual com acento na região Sul da Bahia. “As pessoas estão sendo mortas aqui”, denunciou.

Defendeu o entendimento de que o direito à terra, aos territórios indígenas, é congênito, natural para os indígenas, pois anterior à propriedade privada. Também apresentou um esquema histórico para evidenciar como as populações indígenas está alijadas das políticas públicas há 518 anos.

Casé defendeu o direito à alteridade, à autonomia e à proteção da natureza pelos povos indígenas a partir da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Também denunciou o que chama de “etnocídio epistêmico”, expressão na qual está trabalhando em seu pós-doutoramento, que consiste em uma das modalidades de genocídio de indígenas no Brasil.

Para ele, a universidade tem que ser um espaço para que o(a) indígena possa ser doutor(a), mas sem deixar de ser indígena. “A universidade tem que ser diferente para abarcar todas as diferenças”, sentenciou. O professor Casé conclamou o espírito coletivo, a união: “Se ficar, o bicho pega, se fugir, o bicho come, se juntar, o bicho foge”.

“São muitas as sementes de Marielle”

A professora Célia Regina da Silva é uma das 219 doutoras negras professoras em cursos de pós-graduação do Brasil, conforme dados do Censo da Educação Superior mais recente, de 2016. É professora do Campus Jorge Amado da UFSB e também atua no Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER). Tem atuação acadêmica e militante na temática das relações entre mulheres, mulheres negras e mídia.

Ela iniciou sua fala com a divulgação de um prêmio que recebeu neste ano da Fundação Ford, da qual é ex-bolsista. E também lembrou a Campanha 16 dias de ativismo no combate à violência contra a mulher, iniciada no dia 25 de novembro.

Célia fez questão de reiterar sua atuação como professora militante e ressaltou as mudanças que se processam na sociedade em relação ao racismo e à violência contra as mulheres, destacando a eleição de cerca de 20 mulheres negras no último pleito. Na visão da professora, “o mundo está mudando. Há que se ter esperança”.

Após a apresentação de uma série de dados sobre a temática, a professora Célia Regina encerrou sua fala com o questionamento sobre “nosso papel como docentes e militantes no cenário que se avizinha”. E, como abertura para uma resposta possível, citou a professora e escritora Conceição Evaristo, para quem o papel das mulheres negras é de “reflexão e incômodo”.

Palavras do público

João Paulo Valete, estudante da LI em Linguagens do Campus Paulo Freire, participou do evento, que classificou como importante, “principalmente se considerarmos o momento político que estamos vivendo, em que há um discurso de enfraquecimento dos direitos humanos. Em parte, isso acontece por ignorância, pois as pessoas não sabem o que é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Gostei muito das pessoas que foram convidadas. Cada uma representou um segmento e/ou intersecções. Eu mesmo não sabia sobre dados, informações que foram expostas. Depois que passamos por um evento como esse não somos mais os mesmos.”

Gabriel Ferreira Silva, estudante do BI em Humanidades do Campus Jorge Amado, acredita que, “como base para a educação da sociedade, a discussão dos Direitos Humanos no âmbito universitário é necessária, também para que a coisificação do ser humano caia por terra, fazendo pensar na dignidade humana, no bem-estar social, em direitos que são intrínsecos ao ser humano.”

 

O encerramento do Simpósio foi realizado pela reitora da UFSB, professora Joana Guimarães.

 

Agradecimentos especiais da Comissão Organizadora: Mestres de Cerimônia, Lúcia Helena Gomes Ramos e Josivaldo Félix Câmara, estudantes do PPGER. Núbia Silva, Núbia de Lili e Jorge.

Fotos: Heleno Nazário (ACS).

registrado em:
Fim do conteúdo da página