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Estudo descreve espécie de aranha antes desconhecida da ciência

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Terça, 24 de Março de 2026, 10h42 | Última atualização em Terça, 24 de Março de 2026, 11h04 | Acessos: 104

trechona garimpeira CopiaUma aranha encontrada dentro de uma sala. Fato comum, ainda mais em uma universidade próxima da Mata Atlântica, como é o caso da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Mas, no caso em questão, esse achado rendeu uma descrição de espécie antes desconhecida: a Trechona garimpeira. A novidade consta do artigo A new species of Trechona C. L. Koch 1850 from Northeast Brazil (Araneae: Mygalomorphae: Dipluridae) [Uma nova espécie de Trechona C. L. Koch 1850 do Nordeste do Brasil (Araneae: Mygalomorphae: Dipluridae)]. O estudo é assinado por Gabriel Wermelinger-Moreira e Renner Luiz Cerqueira Baptista, do Laboratório de Diversidade de Aracnídeos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Beatriz Vitória Siqueira Lemos e Felipe Micali Nuvoloni, do Laboratório de Ecologia Animal e Genômica Ambiental da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). O artigo foi publicado no periódico Acta Arachnologica, volume 74, número 2, em dezembro de 2025.

A descrição da espécie é o primeiro registro do gênero Trechona no Nordeste do Brasil. Espécies desse até então eram tidas como existentes no Sudeste, com registros pontuais no Sul e no Norte do país. Também se trata do primeiro registro do gênero na Floresta de Tabuleiro. Esse ecossistema costeiro da Mata Atlântica ainda é pouco explorado em estudos sobre aranhas. Trata-se de floresta tropical úmida de planície, próxima ao litoral, com fauna e flora rica e complexa, distribuída pelo sudeste da Bahia e nordeste do Espírito Santo.


Esses indícios ampliam o entendimento sobre a presença de aranhas do gênero Trechona no Brasil. A espécie descrita mostra que o gênero pode existir em ambientes diferentes dentro e nas bordas da Mata Atlântica. Isso inclui zonas de transição com Cerrado e Caatinga, sugerindo mais estudos sobre a evolução e dispersão do grupo. Trechona garimpeira n. sp. pode ser encontrada da Bahia central e sul até o centro de Minas Gerais.

 

Acaso e investigação

trechona garimpeira habitat CSCUm dos autores, o professor Felipe Micali Nuvoloni, conta que o estudo não começou como um projeto planejado. A descoberta aconteceu de forma totalmente inesperada no Campus Sosígenes Costa da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em Porto Seguro. "O exemplar da aranha foi encontrado pela estudante e bolsista de extensão Beatriz Vitória Siqueira Lemos nos corredores de uma sala de aula da universidade. No campus é relativamente comum o aparecimento de animais silvestres, já que a área ainda mantém grande proximidade com ambientes naturais. Por isso, com frequência realizamos o resgate de animais que aparecem em salas de aula, corredores ou outros espaços da universidade", detalha o cientista.

Após a coleta, o animal foi levado ao Laboratório de Ecologia Animal e Genômica Ambiental (LEGAM) para identificação. A caranguejeira tinha características incomuns: apresentava um par de fiandeiras muito mais longas que o habitual e uma coloração diferente da maioria das espécies conhecidas. 

A partir disso, a estudante e o professor Felipe Nuvoloni iniciaram a tentativa de identificação do exemplar. As análises indicaram que se tratava de uma aranha da família Dipluridae, do gênero Trechona. No entanto, ao comparar com a literatura científica disponível, perceberam que não havia correspondência clara com nenhuma espécie já descrita no Brasil. Além disso, não havia registros documentados desse gênero para a região Nordeste. Isso motivou a consulta na comunidade científica, como conta o professor Felipe Nuvoloni:

"Diante dessa possibilidade, entramos em contato com pesquisadores do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que recentemente vinham revisando e descrevendo espécies desse grupo de aranhas. Após enviarmos fotografias do exemplar, veio a surpresa: os pesquisadores informaram que estavam trabalhando na descrição de uma nova espécie coletada em diferentes localidades da Bahia e que o exemplar encontrado na UFSB provavelmente pertencia a essa mesma espécie".

O espécime foi então enviado para estudo no Museu Nacional, onde foi incluído na pesquisa. "Como resultado dessa colaboração, participamos da descrição científica da nova espécie, batizada de Trechona garimpeira. O indivíduo encontrado no campus da UFSB é um dos machos que compõem a chamada série-tipo da espécie, ou seja, os exemplares de referência utilizados para sua descrição formal" conta o professor Felipe. 

O espécime macho de referência para a descrição (chamado "holótipo") foi coletado na Trilha das Águas Claras, em Palmeiras (Chapada Diamantina), em março de 2013. Os espécimes adicionais que complementam a descrição (descritos como "parátipos") foram coletados em Abaíra e Porto Seguro (BA) e em Ouro Preto e Ouro Branco (MG). As coletas ocorreram entre 2007 e 2024, por diferentes pesquisadores, e depositados em coleções institucionais como MNRJ, UFRJ, UFMG e UFSB. 

A jovem cientista Beatriz conta que a experiência a motivou ainda mais: "Como pesquisadora em formação, foi uma das coisas mais interessantes e incentivadoras que poderia me acontecer. Convivendo diariamente com tantos bichos, às vezes esquecemos como um olhar cuidadoso pode fazer total diferença. Nesse caso, me trouxe muito conhecimento e ainda mais curiosidade com o mundo dos artrópodes."

Como foi feita a pesquisa?

O trabalho de descrição envolveu etapas de comparação e medição, conforme literatura especializada. Os padrões de coloração foram descritos com base em espécimes preservados em etanol a 75% e, sempre que possível, comparados a espécimes vivos. Todas as medições foram realizadas com lente com escala milimétrica, seguindo protocolos padronizados para comprimento do corpo, carapaça e artículos dos pedipalpos (apêndices sensoriais e, nos machos, reprodutivos) e pernas.

O bulbo copulatório (estrutura reprodutiva masculina) foi descrito em três regiões: bulbo propriamente dito, base embólica e êmbolo (estrutura que conduz o esperma durante a cópula). A região genital das fêmeas foi dissecada com microagulhas e tratada com solução de bórax e tabletes de enzima digestiva para limpeza, permitindo o exame das espermatecas (estruturas de armazenamento de esperma nas fêmeas). As observações e fotografias foram feitas câmera Leica DFC45P acoplada a estereomicroscópio Leica M205C, no Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional/UFRJ.


Para mapear a distribuição da espécie, a equipe usou o software QGIS v. 3.40, com as coordenadas geográficas extraídas das etiquetas originais dos espécimes ou estimadas via Google Earth.

 

Como é a Trechona Garimpeira?

image 2 0A pesquisa descreve os espécimes como tendo carapaça avermelhada a marrom-avermelhada, abdômen escuro com cinco a seis listras transversais amarelo-pálidas em forma de chevron (marcas em forma de "V" ou listras transversais), pernas longas e robustas, e fiandeiras (estruturas abdominais que produzem a seda) posteriores laterais quase tão longas quanto o abdômen. Machos medem entre 22,8 e 30,5 milímetros (mm) de comprimento total; fêmeas, entre 35,6 e 37,7 mm. Em vida, fêmeas apresentam carapaça marrom-avermelhada, quelíceras e pernas negras, e pernas e palpos com iridescência azulada.

Os machos de T. garimpeira se assemelham a outras espécies do gênero (T. minuana, T. munduruku, T. rufa e T. venosa) por apresentarem o bulbo palpal inteiro alcançando menos de 50% do comprimento da tíbia palpal. O principal caráter distintivo é o êmbolo relativamente mais longo, aproximadamente 2,5 vezes mais comprido que o bulbo propriamente dito — nas demais espécies, essa proporção varia entre 1,2 e 1,5 vezes.

As fêmeas se distinguem pela morfologia das espermatecas: possuem um ramo lateral relativamente longo com uma cabeça globular (em forma de globo) distinta inserida em sua face anterior, além de um ramo mediano mais curto, não bifurcado, e uma cabeça bem esclerotizada (endurecida por esclerotina, proteína que confere rigidez ao exoesqueleto dos artrópodes).

As aranhas do gênero Trechona vivem em tocas que escavam no solo, com seda cobrindo ou formando um véu sobre a entrada das tocas, mas sem teias extensas. 

 

Há outros estudos em vista a partir dessa nova espécie?

Conforme o professor Felipe, a descoberta estimulou novas linhas de investigação envolvendo aracnídeos na região. Outros estudos em andamento no laboratório são sobre grupos de artrópodes ainda pouco conhecidos pela ciência.

WhatsApp Image 2026 03 20 at 15.54.54Um exemplo é uma pesquisa conduzida pela estudante Beatriz Vitória Siqueira Lemos sobre os aracnídeos conhecidos como amblipígios (ordem Amblypygi). Esses animais são aparentados das aranhas, mas possuem aparência bastante distinta, com pernas muito longas e corpo achatado. Os amblipígios assustam pelo tamanho, mas não possuem veneno. 

WhatsApp Image 2026 03 23 at 10.35.51"São artrópodes muitas vezes desconhecidos, muito pela sua aparência assustadora, mas também por não fazerem parte do grupo que chamamos de 'fofo fauna', que cativam a atenção sem muito esforço. Mas a cada dia mais venho descobrindo o quão diverso e curioso esse grupo é. Espero ainda poder voltar aqui para anunciar novas descobertas com essas bichinhos curiosos", planeja Beatriz.

A estudante encontrou amblipígios durante levantamentos realizados na Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) Rio do Brasil, em Trancoso. Os espécimes estão sendo estudados no LEGAM. Como são aracnídeos pouco conhecidos e raramente registrados na natureza, é possível que o material represente uma espécie ainda não descrita pela ciência ou, pelo menos, um novo registro de ocorrência para a região.

"Esses estudos reforçam a importância de pesquisas de biodiversidade no sul da Bahia, uma região inserida na Mata Atlântica e reconhecida mundialmente por sua alta diversidade biológica, mas que ainda possui muitos organismos pouco estudados", afirma o professor Felipe.

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