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Livro articula experiência brasileira de raça e racismo no cenário de América Latina e Caribe

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Terça, 11 de Outubro de 2022, 10h57 | Última atualização em Terça, 11 de Outubro de 2022, 10h58 | Acessos: 748

capa livro rebeca richard carlosUma das consequências da divisão histórica das Américas entre as coroas de Espanha e Portugal é a pluralidade cultural entre os países de língua hispânica e destes com o Brasil. Os modos pelos quais as noções de raça e racismo se manifestam e as medidas adotadas em cada país são perpassados pelas diferenças dos processos históricos da formação de cada Estado nacional. O livro Race and Racism in Latin America and the Caribbean: A Crossview from Brazil, a ser publicado em dezembro pela editora De Gruyter e assinado por Rebeca Lemos Igreja (UNB), Richard Santos (UFSB) e Carlos Agudelo (Universidade de Paris, França), se propõe a colaborar para articular o cenário brasileiro dentro do escopo latino e caribenho e apresenta novos autores dedicados ao tema da afrodescendência e relações étnico-raciais no país para reforçar a discussão.

Em um contexto de intensa crise sanitária e de encarceramento e morte de pessoas negras, os três autores atualizam o estado das relações raciais no país e na região em cinco capítulos, de modo a favorecer a inclusão de olhares científicos nacionais nos debates regionais e internacionais sobre o racismo e as ações em voga para combatê-lo. Conforme o professor Richard Santos, a base do livro é feito dos resultados de pesquisas "no campo da Antropologia, conduzidas pela professora Rebecca Igreja, que também coordena o Colégio Latino-americano de Estudos Mundiais; no campo da Sociologia, com o Carlos Agudelo e, de modo interdisciplinar, pesquisas minhas no campo da Comunicação e das Ciências Sociais. Importante dizer que todos nós nos colocamos no campo da produção anticolonial, da visibilização de novas epistemes e na certeza que a transformação do mundo virá à partir do Sul, com a estagnação do Norte global. Desta forma que acreditamos que levar o mais longe possível “novas” visões de mundo, histórias e processos não-eurocentrados, e que façam a crítica ao neoliberalismo e aposte numa nova constituição social é um caminho para um mundo possível e mais plural".

O professor Richard Santos fala mais sobre o livro e as contribuições da obra em entrevista à ACS.

Que tópicos ligados a raça e ao racismo no Brasil estão colocados em interface com as experiências da América Latina e do Caribe?

Professor Richard Santos - O livro foi escrito a três: pela professora Rebecca Igreja da UNB/FLACSO, antropóloga, e com uma grande produção sobre justiça social, pluralismo jurídico e ações afirmativas no Brasil e América Latina; pelo colega colombiano, sociólogo, professor Carlos Agudelo da Universidade de Paris; e por mim, que trago uma larga experiência interdisciplinar no campo da comunicação e das ciências sociais, além de forte atuação social relacionado ao tema.

Digo isso porque procuramos apresentar para o público uma visão ímpar sobre as realidades de nossa região, a pluralidade de experiências, porém, todas sublinhadas pela experiência da dominação colonial, do racialização das populações locais e os movimentos de resistência nascidos a partir daí com a luta anticolonial. Neste sentido, não tratamos a luta anticolonial como regularmente vimos em nossos livros didáticos, considerando os processos de independência política da região, etc. E sim, como algo constante e necessário para nos livrarmos das amarras da servidão, da subalternização dos corpos e da intelectualidade e do epistemicídio. Assim que foi possível trazer um panorama sócio-histórico ímpar, visibilizando os invisibilizados, a intelectualidade negra o protagonismo negro e as experiências de resistência e sobrevivência que não nos contam nas escolas.

Sendo mais objetivo, trazemos cinco capítulos que abordam raça, cor e racismo na América Latina, caso do primeiro capítulo, com uma abordagem historicizante das ciências sociais. No capítulo dois trazemos a história dos predecessores do protagonismo negro à partir do final do século XIX até sua transformação nos anos 1970 e o debate sobre multiculturalismo. Chegando ao capítulo três, discutimos a ascensão do multiculturalismo e as novas identidades étnico-raciais na região. Adentramos o capítulo quatro explorando as possibilidades do signo “raça” como categoria balizadora de direitos e políticas públicas no presente. Apresentamos o debate sobre as classificações raciais, políticas de identidade, o debate sobre cor e raça no Brasil, ações afirmativas e a expansão da extrema-direita no Brasil, e traçamos um perfil sócio-histórico do Movimento Negro na contemporaneidade. Por fim, fechamos o livro no quinto capítulo com um aprofundamento sobre o multiculturalismo e o novo panorama político da região após estas transformações que abordamos no livro desde finais do século XIX. Apontamos que, nos últimos vinte anos, a região viveu uma transformação: de uma invisibilidade “oficial” das populações negras para um giro que trouxe atenção e escuta a esta mesma população. Porém, apesar deste giro, é significativo que as demandas e transformações desta população seguem sem respostas, sendo ignoradas pelos governantes.

 

Em termos de políticas afirmativas e de políticas antirracistas, como o Brasil se posiciona perante outros países da região de interesse do livro?

Professor Richard Santos - Como trazemos no livro, vimos um grande avanço no Brasil, principalmente no período que podemos classificar entre o segundo mandato de FHC e o primeiro de Dilma Rousseff. Ainda que sejam políticas e transformações insuficientes, conforme apontei na resposta anterior, são políticas referenciais para a região onde o Brasil historicamente ocupa lugar de liderança. Ao mesmo tempo, corremos o risco de consagrar a percepção de que foi uma espécie de “avanço paralisante”, na medida que as ações governamentais não necessariamente se tornaram políticas de Estado e que vimos, desde o governo Michel Temer, um desmonte das políticas públicas voltadas para o social. Importante esta demarcação sobre políticas sociais, já que somos uma maioria populacional no Brasil de pretos e pardos, negros, conforme classificação do IBGE, são ações e processos para além das ações afirmativas. Toda política de saúde, alimentação, saneamento, etc, com recorte para o que classifico de Maioria Minorizada, são também políticas pela vida dessa maioria e, portanto, antirracistas. E o que vimos, com especial atenção para a pandemia, foi e tem sido o recrudescimento da dureza da vida para essa Maioria Minorizada.

 

O que marca a experiência brasileira do racismo e da resistência contra o mesmo perante os demais países da AL e Caribe?

Professor Richard Santos -Veja, temos muitas semelhanças, temos na região a ideia de comunidade nacional especial, se no México eles são a tal “raça cósmica”, por aqui somos a miscigenação da “democracia racial”, do país onde todos são bem-vindos, nossa natureza e clima quente nos fazem diferentes. São diferentes abordagens para a construção de seus mitos de origem, de nacionalidade ímpar para povos ímpares, isso é fruto do colonialismo ibérico, o projeto de poder de seus descendentes e de construção de uma narrativa que integra ao tempo que na prática excluí. Alguns colegas informam que no Brasil temos uma espécie de “racismo à brasileira”, onde a marca (fenótipos raciais não-brancos) dizem mais do que a origem em si. Por outro lado, na articulação da resistência e o combate ao racismo no Brasil e região sempre foi uma articulação internacionalizada. Temos registros de cartas e jornais trocados entre a comunidade negra desde fins do século XIX. Apresentamos essas trocas e influências no livro, e isso vai refletir na produção intelectual negra brasileira e da região. Assim veremos a relação com o movimento da negritude, os congressos de cultura negra nas Américas, a movimentação para os Colóquios de Dakar no Senegal e a interação entre nossa intelectualidade.

 

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