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Pesquisa do PPGER/UFSB resulta em livro sobre educação e sexualidade infantil

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Quinta, 09 de Dezembro de 2021, 17h39 | Última atualização em Segunda, 13 de Dezembro de 2021, 17h14 | Acessos: 1589

iraildes defesa 02

A educação infantil é hoje tema que desperta vivos interesses e demanda uma perspectiva compreensiva e atenta para as questões relevantes. Um dos tópicos envolvidos é a fase natural das primeiras perguntas e percepções da criança sobre a sexualidade, as diferenças entre meninos e meninas, justamente no ponto de suas vidas em que a educação infantil, nas pré-escolas, favorece a convivência com outras pessoas da mesma idade. Esse foi o tema da dissertação da professora Iraildes Biano Santos, recém-mestra pelo Programa de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais pela Universidade Federal do Sul da Bahia (PPGER/UFSB), sob a orientação da professora Maria do Carmo Rebouças da Cruz Ferreira dos Santos (UFSB).

Como o PPGER é um mestrado profissional voltado a docentes atuantes na Educação Básica, incluindo os níveis fundamental e médio de ensino, Iraildes desenvolveu sua dissertação e também um produto voltado a promover reflexão e novas práticas no ambiente escolar, o livro “Sexualidade da criança na Educação Infantil: vamos falar sobre isso!”dedicado à formação de professores para abordar as questões de sexualidade típicas da faixa etária dos alunos da Educação Infantil. A defesa do estudo ocorreu em 27 de outubro deste ano, perante a banca examinadora formada pelas professoras Maria do Carmo (UFSB), Carolina Bessa Ferreira de Oliveira (UFSB) e Rita Silvana Santana dos Santos (UNB).

Conforme a professora Iraildes, a pesquisa intitulada Sexualidade da criança na Educação Infantil: (re)pensando as práticas educacionais no ambiente escolar aborda os caminhos para que se tenha na escola "uma atuação docente que promova espaços de diálogos e ações assertivas sobre sexualidade infantil na escola, dentro de uma ótica decolonizadora, impulsionadora da (re)construção dos conhecimentos necessários a demanda em questão". Ela conta que dentre as perspectivas teóricas presentes em seu estudo estão Bauman, Foucault, Freud, Furlani, hooks e Louro; é com eles que Iraildes refletiu sobre a sexualidade na Educação Infantil, tendo como objetivo geral contribuir com as práticas das(os) professoras(es) da Educação Infantil (Pré-Escola) sobre sexualidade infantil a partir de "uma perspectiva decolonizadora, norteadora às ações destas(es) profissionais sobre os aspectos que envolvem manifestações sexuais das crianças na instituição escolar, para que haja espaço de diálogos e ações assertivas sobre a sexualidade infantil", conta a pesquisadora.

Para a realização do trabalho, Iraildes empregou a pesquisa-ação "ancorada na abordagem qualitativa, de natureza aplicada e caráter exploratório. Este esboço consta de levantamento bibliográfico e revisão teórica no campo da educação e das relações étnico-raciais, com ênfase na sexualidade infantil", explica. Por motivo de ética em pesquisa e garantias de sigilo da identificação, os nomes do educandário no qual a pesquisa foi feita e da equipe docente que compôs o grupo focal não constam da dissertação. "Contudo, para citar as potentes contribuições das professoras que compuseram o grupo focal do estudo realizado, adotei nomes de mulheres negras do cenário nacional brasileiro, intelectuais, pesquisadoras, militantes, protagonistas na luta e resistência do povo negro, que buscam/buscaram romper o silenciamento e invisibilidade impostos pelo colonialismo", afirma a docente.

Além do conhecimento do estado da arte sobre o tema, a professora também analisou a comunidade escolar, com quatro encontros de estudo e pesquisa com o grupo focal, composto por professoras atuantes na Educação Infantil da escola estudada, com discussões e trocas de experiências acerca das temáticas abordadas na investigação. Ela conta que as participantes relataram as dificuldades para intervir quando das manifestações da sexualidade infantil por causa da carência de formação e da influência de questões individuais e subjetivas na atuação, como crenças e valores. Outro desafio exposto pelas educadoras é o de compreender se as manifestações são naturais do desenvolvimento das crianças ou se são frutos de um processo de sexualização precoce e/ou violência sexual. Essas ânsias e dúvidas deram rumo ao trabalho que resultou no livro."Esta etapa da pesquisa culmina na elaboração de propostas pedagógicas, que, após o processo de análise, reescrita, reestruturação e complementação, estão no livro. Nessa trajetória, primei por garantir um espaço coletivo de diálogo e reflexão crítica decolonial, que possibilitasse a (re)construção do conhecimento e entendimento pedagógico que alicerçam atuações e/ou intervenções docentes assertivas acerca da sexualidade de crianças da Educação Infantil." 

"Como produto final deste estudo, temos a elaboração e socialização do livro “Sexualidade da criança na Educação Infantil: vamos falar sobre isso!”, resultado das investigações teóricas e práticas, composto por considerações norteadoras ao corpo pedagógico e propostas pedagógicas, a ser utilizado como instrumento de formação para as/os educadoras(es) da modalidade de ensino denominada Educação Infantil, acerca das problemáticas que permeiam a sexualidade das crianças, a fim de auxiliar essas(es) educadoras(es) em sua atuação efetiva em sala de aula". 

 

Educar com responsabilidade e diálogo

iraildes defesa 03A relevância do assunto fica evidente quando se considera que a educação infantil cobre uma fase muito importante da formação pessoal, com vários aprendizados e descobertas para a pequena pessoa que começa a conviver com outros adultos e crianças fora do círculo familiar. Nesse período, um dos elementos essenciais para que a etapa formativa seja proveitosa para a criança é a preparação docente. Para Iraildes, ao se considerar a sexualidade infantil e as manifestações sexuais deste grupo como uma realidade na Educação Infantil, esta pesquisa se mostrou necessária para a obtenção de propostas pedagógicas que contribuam para que professoras e professores repensem e refaçam suas práticas em sala de aula, dentro de uma perspectiva decolonizadora, formativa, dialógica, crítica e reflexiva. "Buscando sintetizar os resultados alcançados, mediante o estudo teórico realizado, foi possível se realizar a necessária articulação entre os órgãos educacionais, a comunidade acadêmica e os corpos escolares, para que, através dessa junção harmoniosa, pudesse ser elaboradas ações que contribuam com a atuação da(o) docente em exercício na Educação Infantil, no que tange às manifestações sexuais das crianças."

Assim, a grande pergunta que moveu a pesquisadora em seu trabalho foi "quais os caminhos a se percorrer, para alcançar uma atuação docente que promova espaços de diálogos e ações assertivas sobre sexualidade infantil no ambiente escolar, dentro de uma ótica decolonizadora, impulsionadora da (re)construção dos conhecimentos necessários a demanda em questão?". O que ficou claro para a professora Iraildes é que a formação docente precisa incluir "questões relacionadas à sexualidade desde a Educação Infantil, com suporte teórico desnudo de mitos e tabus, capaz de refutar as “verdades” sobre sexualidade, cristalizadas no decorrer da nossa história, respeitando as descobertas e manifestações sexuais próprias da fase do desenvolvimento infantil".

A proposta de Iraildes para intervir nesse cenário consta do livro que resultou da pesquisa. Ali, a autora dispõe de conceitos presentes nos estudos da sexualidade na infância, de modo que docentes da Educação Infantil possam entender mais profundamente os conteúdos expostos na sessão “Teorizando e refletindo”, reunindo alguns conhecimentos teóricos, interdisciplinares e decoloniais, relevantes à compreensão da sexualidade de crianças na Educação Infantil. "Entrelaçando a realidade com a teoria, os diálogos e experiências partilhados pelas docentes ao longo da conversação irão se apresentar no desenvolver das páginas, servindo como fonte de análises, (re)construções  e reflexões  para o(a) leitor(a). Neste livro se apresenta uma nuvem de palavras composta por expressões verbalizadas e extraídas das discussões ao longo dos quatro encontros com as professoras atuantes na Educação Infantil, sendo estas, palavras, que foram proferidas enfaticamente durante o processo de fala e escuta, promovido por esses momentos de estudos, reflexões e partilhas. O material educacional também se compõe de um estudo de caso, que visa favorecer a reflexão e análise de fatos que envolvem a sexualidade na escola e os métodos de resolução utilizados pelos sujeitos envolvidos", detalha a professora.

O principal eixo do livro, conforme a professora Iraildes, é a coletânea de propostas pedagógicas, elaboradas coletivamente pelo grupo focal desta pesquisa e que abrangem todos os públicos, pais, docentes e crianças. Em detalhes, essa parte inclui cinco sugestões organizadas. A primeira é uma oficina para docentes, a fim de trocar experiências, estudos teóricos e pensar a intervenção prática; a segunda, um minicurso que reforça o papel da/do docente na construção da sexualidade da criança e compartilha materiais e recursos para abordagem da temática. Em terceiro lugar, a coletânea apresenta o modelo de um projeto a ser realizado com estudantes, para dialogar sobre os corpos, o brincar e a produção de representações anatômicas com as crianças. Na sequência, as palestras destinadas a pais e responsáveis das crianças, para tratar temas emergentes que tangem a sexualidade, contando com profissionais de áreas diversas do conhecimento. Esta etapa visa abordar o assunto e estabelecer uma relação de confiança, pois as professoras participantes da pesquisa afirmaram ter tido experiências que deixaram como lembrança o receio em abordar o tema com os responsáveis pelas crianças: "Porém, expressam a necessidade de que haja uma relação de confiança entre a equipe escolar e as/os responsáveis, para assim ser estabelecido um espaço de diálogo", diz Iraildes. Por fim, a formação continuada, a ser ofertada pela Secretaria de Educação durante as Jornadas Pedagógicas, composta por oficinas, palestras e exposições.

Na comparação com o período prévio à intervenção, a pesquisadora notou que houve aprendizados significativos e reflexões sobre as atuações da equipe escolar frente a sexualidade na infância no contexto da Educação Infantil. A professora e mestra Iraildes afirma que a reflexão sobre o tema deve ser acompanhada de uma autoanálise por parte dos docentes. "Para encerrar essa etapa - não as discussões, problematizações e reflexões acerca da sexualidade nos corpos infantis, pois reitero a real impossibilidade de concluí-las - aconselho as/os professoras(es) que façam uma análise crítica sobre as suas atuações frente às manifestações sexuais infantis, e sejam sujeitos que busquem e cobrem uma formação adequada e constante para melhor contribuir no desenvolvimento das(os) estudantes. Afinal, conforme as palavras do grande mestre Paulo Freire: 'Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de ensinar e não a de transferir conhecimento'".

 

 

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