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Intervenção humana é fator mais importante no estoque de carbono da Mata Atlântica, concluem cientistas

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Segunda, 11 de Julho de 2022, 15h24 | Última atualização em Terça, 12 de Julho de 2022, 10h28 | Acessos: 410

Floresta de Tabuleiro sob efeito de bordaCada tipo de formação florestal se desenvolve de acordo com diferentes fatores, como a quantidade de água disponível pelo regime de chuvas e a fertilidade do solo, por exemplo. A Mata Atlântica apresenta diversos tipos de florestas por conta das variadas combinações locais entre esses fatores. Um dos principais serviços ecossistêmicos oferecidos pelas florestas é o sequestro e o estoque de carbono, ou seja, a retenção de carbono na biomassa da árvore durante o processo de fotossíntese, o que ajuda a compensar as emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera. Se a árvore no solo retém esse elemento, a queima e o desmatamento liberam carbono e reduzem a capacidade de estocagem das matas.

Pesquisa recentemente publicada confirma que a intervenção antrópica (ação humana) é o mais importante fator na variação dos estoques de carbono pela Mata Atlântica. Essa é uma das conclusões a que chegaram os autores do artigo Human impacts as the main driver of tropical forest carbon, publicado na revista Science Advancesassinado por Marcela Venelli Pyles (Departamento de Ecologia e Conservação/Universidade Federal de Lavras; analista na Way Carbon), Luiz Fernando Silva Magnago (Centro de Formação em Ciências Agroflorestais/UFSB), Vinícius Andrade Maia (Departamento de Ciências Florestais/Universidade Federal de Lavras), Bruno X. Pinho(Departamento de Botânica/UFPE; Universidade de Montpellier), Gregory Pitta (Departamento de Ecologia/USP), André L. de Gasper (Departamento de Ciências Naturais/Universidade Regional de Blumenau), Alexander C. Vibrans (Departamento de Engenharia Florestal/Universidade Regional de Blumenau), Rubens Manoel dos Santos (Departamento de Ciências Florestais/Universidade Federal de Lavras), Eduardo van den Berg (Departamento de Ecologia e Conservação/Universidade Federal de Lavras) e Renato A. F. Lima (Laboratório de Ecologia/USP).

A partir de uma metodologia que permitiu análise computacional de dados de 892 inventários florestais da Mata Atlântica em todo o país, a equipe de pesquisadores buscou responder duas perguntas: quais são os fatores mais importantes para o estoque de carbono da Mata Atlântica, e quais são os efeitos diretos e indiretos desses fatores. Considerando os impactos humanos, como o desmatamento, as características específicas de cada floresta, as condições ambientais, dentre elas as mudanças climáticas, e os métodos de coleta de amostras no campo, o estudo liderado por Marcela Venelli Pyles descobriu que os efeitos da atividade humana superam os fatores naturais na composição dos estoques de carbono nas florestas do bioma.

Com um histórico de exploração de recursos naturais e de ciclos econômicos reduzindo as áreas de floresta, a Mata Atlântica perdeu em diversos pontos a capacidade de armazenamento, conforme Marcela. A derrubada de grandes árvores e a permanente diminuição do tamanho de florestas em fragmentos causa os efeitos de borda - quando as árvores nas extremidades do fragmento florestal ficam mais expostas a fatores climáticos, parasitas e outros fatores químicos e biológicos, tendem a adoecer e a morrer lentamente, por dificuldades de adaptação.

A pesquisa aponta para uma forte influência da ação humana, que chega a ter um peso entre duas e seis vezes maior que o dos fatores como clima, características do solo e da composição de árvores que integram a floresta. Com a degradação florestal provocando tantos efeitos, estima-se que esse fator sozinho provoque perdas nos estoques de carbono 30% maiores do que qualquer circunstância climática futura. Na comparação enttre dois cenários, a intensificação dos distúrbios nos fragmentos florestais podem ocasionar a liberação de 10,5 toneladas de carbono na atmosfera, uma redução de 15,25% no estoque estimado de carbono na Mata Atlântica. Já o trabalho de recuperação e conservação florestal poderia aumentar o estoque em 12,02 toneladas, um ganho de 17,44%.

O peso da ação humana é tal que a inação nesse sentido pode colocar em risco o cumprimento de metas assumidas pelo Brasil em acordos internacionais voltados para o planejamento de conservação e de mitigação dos efeitos de mudanças climáticas, como o REDD+ (Redução de Emissões e Degradação Florestal, é um instrumento projetado no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima para recompensar financeiramente países em desenvolvimento por seus resultados relacionados à recuperação e conservação de suas florestas) e Aichi (20 proposições voltadas à redução da perda da biodiversidade aprovadas na 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica), com efeitos econômicos e políticos no cenário mundial.

Ainda assim, as mudanças climáticas globais, como temperatura e déficit hídrico, têm peso na variação dos estoques da Mata Atlântica. Por exemplo, se o aquecimento global ficasse restrito a 1,5º Celsius acima dos níveis pré-industriais, como sugere o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC-54), 3,53 toneladas de carbono seriam emitidas apenas pelos remanescentes da Mata Atlântica. Caso o aquecimento continue na progressão atual, as emissões de carbono podem ultrapassar 9 toneladas de carbono, uma perda de 13,11%. 

 

Efeitos diretos e indiretos

A segunda questão que a equipe de pesquisadores propôs teve como resultado a quantificação dos impactos diretos e indiretos da intervenção do ser humano na capacidade de estocagem de carbono da Mata Atlântica. Essas informações ajudam a compreender melhor as dinâmicas dos estoques florestais. Assim, um evento de degradação florestal afeta diretamente o tamanho do estoque ao retirar árvores para a atividade madeireira, por exemplo. Os impactos indiretos dessa retirada são a alteração da estrutura e do microclima da floresta, que levam a uma diferente composição de espécies que vão se desenvolver ali e formar o dossel da floresta e, consequentemente, reduzem os níveis de sequestro e estoque de carbono.

“Esses resultados reforçam que o restante da Mata Atlântica precisa ser bem manejado para a conservação e reestabelecimento do seu potencial de estocar carbono” diz o professor Luiz Magnago, da Universidade Federal do Sul da Bahia. “As florestas degradadas são uma fonte potencial para sequestrar carbono da atmosfera, porém, se o nível de degradação for muito alto, esse potencial pode estar perdido. Técnicas conhecidas como enriquecimento da floresta e manejo de lianas podem oferecer uma resiliência mais alta para florestas degradadas”, continua Magnago.

O professor Renato Lima (USP), coautor do trabalho, destaca que o estudo também se relaciona a propor ações para a mitigar as mudanças climáticas globais. “Nós observamos que o aumento da degradação florestal pode causar emissões maiores de gases de efeito estufa do que os próprios aumentos da temperatura previstos para as próximas décadas. Isso também quer dizer que medidas para combater ou reverter a degradação florestal podem ser uma estratégia eficaz para sequestrar carbono da atmosfera a médio e longo prazo”. Assim, projetos de recuperação para os remanescentes florestais da Mata Atlântica, degradados ou não, ganham relevância pela possibilidade de gestão dos estoques e o potencial para retirar dióxido de carbono através do processo de fotossíntese.

Floresta Estacional Semidecídua preservadaFloresta Estacional Semidecídua degradadaOutro resultado da pesquisa foi a recomendação de estratégias diferentes para as restaurações florestais que visam recompor estoques de carbono e para as que pretendem recuperar diversidade de espécies na Mata Atlântica. Isso porque a pesquisa apontou que a correlação entre biodiversidade e capacidade de estocagem de carbono é pequena. "A primeira estratégia, e mais simples, seria cessar os impactos internos nas florestas. Como exemplo, retirada ilegal de madeira e criação de aceiros para evitar incêndios. Isso abriria espaço para a sucessão natural das florestas", explica o professor Magnago. "segunda estratégia poderia ser aplicada em florestas com níveis de degradação mais fortes, como exemplo o manejo de cipós e plantios de enriquecimento de espécies nativas da região".

O professor Magnago avalia ainda que, como o estudo identificou que o tamanho dos fragmentos florestais e os níveis de fragmentação das paisagens afetam a diversidade e principalmente o carbono de espécies arbóreas, projetos de restaurações florestais, seja por plantios de mudas ou por sucessão natural assistida devem ser implantados: "Essas ações de restauração devem visar o aumento em área dos fragmentos florestais e também a mitigação dos efeitos da fragmentação, como exemplo o isolamento entre os remanescentes florestais existentes". 

 

 

 

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