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Pesquisa publicada em periódico internacional relata a formação do Delta do rio Jequitinhonha

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Segunda, 08 de Novembro de 2021, 11h40 | Última atualização em Terça, 09 de Novembro de 2021, 09h45 | Acessos: 478

Uma pesquisa pioneira realizou uma investigação geocronológica do Delta do rio Jequitinhonha e teve seus resultados publicados em revista científica internacional. O que se descobriu é que ocorre um retrocesso da costa por erosão, em parte por conta das interferências humanas no rio, contrariando a tendência natural de expansão da área costeira. O tema é importante por analisar e determinar o processo de formação do delta do rio ao longo do tempo, os fatores envolvidos e como os processos naturais e as interferências do ser humano mudam a paisagem e os fluxos de água e sedimentos. O artigo Characterization and geochronology of the deltaic system from Jequitinhonha River, Brazil, publicado na revista Agriculture and Forestry, é assinado por Vinícius de Amorim Silva (UFSB), Archimedes Perez Filho (Unicamp), Vinícius Borges Moreira (Unicamp), Luca Lämmle (Unicamp), Bruno Araujo Torres (Unicamp), Joaquim Ernesto Bernardes Ayer (Embrapa/UNIFACP), Velibor Spalevic (Universidade de Montenegro) e Ronaldo Luiz Mincato (UNIFAL).

 

foto área de pesquisaO delta, ou formação deltaica, é um avanço de área de solo na costa, causado pelo depósito de sedimentos trazidos pelos rios e retrabalhados pela ação das águas do mar. Esses avanços, ou progradações, podem ter diferentes configurações conforme a energia dominante seja a energia de ondas, de marés ou fluvial (do rio), o que depende de variáveis como a energia e características da bacia hidrográfica; a energia da bacia receptora; a diferença de densidade entre as águas da bacia receptora e hidrográfica; o tipo de sedimento e a mudança no nível do mar. Em suma: a forma do delta de um rio vai depender de como está a diferença de forças entre as energias do rio e do mar, se o nível do mar aumentou ou diminuiu, qual o tipo de sedimento que o rio carrega até o litoral e qual a diferença de densidade das águas do rio e do mar naquele ponto de encontro. A situação de um delta importa para as populações ribeirinhas, que ali têm suas moradias e suas fontes de sustento. 

 

O professor Vinicius de Amorim Silva, que leciona e pesquisa no Centro de Formação em TecnoCiências e Inovação (CFTCI/UFSB), no Campus Jorge Amado em Itabuna, conta que esse tipo de estudo oferece contribuições ao descrever as mudanças em um local em um período extenso: “O estudo contribui para a compreensão da gênese e dinâmica dos fenômenos geomorfológicos naturais, antropogênicos e as causas e efeitos desses, para a sociedade contemporânea. Estas transformações tiveram impactos sociais, econômicos e ambientais negativos, impulsionados pela construção e operacionalização de grandes obras de engenharia”, detalha, ao falar de como foram desconsideradas a dinâmica natural e a influência da ação humana nos fluxos aquosos, sedimentos fluviais e sedimentos marinhos, no baixo curso e Delta do rio Jequitinhonha, podem trazer efeitos locais, ainda mais danosos para a sociedade como um todo”, detalha. O conhecimento acerca dos danos causados pelo ser humano é essencial para a tomada de decisões ligadas à gestão e uso sustentável dos recursos naturais das áreas costeiras.

  

O cientista conta que outra contribuição da pesquisa realizada é comprovar que é preciso investigar continuamente os potenciais impactos socioeconômicos e ambientais na área de estudo, para entender como os ambientes costeiros “respondem” às construções próximas e à manutenção de obras de grande porte de engenharia, como usinas hidrelétricas, por exemplo. “É imperiosa a análise dos efeitos no Delta do rio Jequitinhonha, ambiente caracterizado por ser um sistema altamente dinâmico e complexo, onde atuam forças que mobilizam material de origem fluvial, marinho e flúvio-marinho”, declara o professor Vinicius.

Esse saber é requisito para planejar e agir com eficácia na gestão costeira e dos recursos hídricos. “Entender o passado e o presente para a tomada das futuras decisões, baseadas em uma gestão ambientalmente sustentável e economicamente viável, é essencial para a mitigação dos prejuízos ambientais, sociais e econômicos”.

Desvendar o ontem e o hoje do rio

Um dos resultados da pesquisa aponta para a erosão do delta e a mudança do fluxo de depósito de sedimentos da margem esquerda para a direita na foz do rio. Essa mudança afeta aspectos do uso do rio, como a pesca e a navegação, atividades próprias da população ribeirinha, e se relaciona a um processo com articulações importantes. Por um lado, o Jequitinhonha passou por muitas alterações em seu fluxo, especialmente pela construção da Usina de Itapebi, enfraquecendo sua energia. Por outro, percebe-se o aumento do volume de água ocêanica, causada pelo avanço do mar, mudança ligada a fenômeno global, que aumenta a energia das ondas e quebra o equilíbrio cíclico na formação dos depósitos. Os depósitos mais antigos foram identificados na margem esquerda, seguidos cronologicamente pelos depósitos da margem direita e depois, pelos depósitos na ilha frontal, os mais recentes. A erosão das margens do Jequitinhonha na sua foz afeta moradia, pesca e navegação

moradias ribeirinhasPela dimensão do problema, explica o professor Vinicius, não há como afirmar de pronto uma solução para reverter ou diminuir os processos erosivos. Nesse sentido, continua ele, é essencial contar com pesquisas complementares a essa e com outras inovações tecnológicas, como a “utilização de modelagem hidrológica, associadas às técnicas de geoprocessamento e inteligência artificial. Todas as metodologias citadas têm uma grande capacidade de armazenamento e tratamento digital de dados espaciais”.

A montagem da linha do tempo que indica as etapas da formação do delta do Jequitinhonha mostrou que a tendência natural era a progradação da costa, isto é, o avanço gradual a partir do fluxo do rio e pelo depósito de sedimentos. A instalação da hidrelétrica de Itapebi é o ponto de mudança, mas não é a única causa. “Não só a construção e operacionalização da Usina Hidrelétrica de Itapebi é responsável pela inflexão, mas hipóteses corroboradas em outros trabalhos científicos, como o advento da retificação do canal fluvial realizada há algumas décadas para atenuar os problemas das enchentes e inundações na cidade de Belmonte e as demais alterações de uso, cobertura e ocupação da terra, em toda a rede de drenagem são responsáveis por mudanças substanciais no meio natural, acelerando ou retardando processos erosivos e deposicionais”, detalha o professor Vinicius.

Para saber o que acontecerá na região por conta disso será preciso investir em mais pesquisas, para o que os recursos de fomento às investigações científicas são fundamentais. As pesquisas a serem realizadas demandarão trabalhos de campo, de laboratório e gabinete via modelagem computacional em equipamentos com grande capacidade de armazenamento e processamento para o tratamento de dados hidrometeorológicos e hidrossedimentológicos, o emprego de técnicas de geoprocessamento e sistemas de informação geográfica, via aquisição e tratamento de fotografias aéreas digitais e imagens orbitais (satélite e ou radar). “Os cruzamentos destes dados terão como resultado a geração de novos conhecimentos, via simulações de eventos geomorfológicos locais e regionais, e a análise dos cenários do passado (geocronologia), presente (atributos naturais acrescidos de alterações antropogênicas) e futuras (cenários prognósticos, se as condições do presente perdurarem no futuro ou até mesmo, modelando-se cenários hipotéticos)”, afirma o pesquisador.

A demanda por energia elétrica inerente às atividades humanas é cada vez maior, e o barramento de rios causa sérios prejuízos à própria sociedade. O professor Vinicius reconhece que a instalação e operacionalização das usinas hidrelétricas são de difícil reversão. “Não há muito o que fazer após a instalação e operacionalização via barramento de rios. O barramento e operacionalização de barragens para gerar energia hidrelétrica alteram os padrões de drenagem; a barragem requer a regularização da vazão fluvial e, por efeito, implica no déficit do aporte de sedimentos que tem como destino, o baixo curso e o Delta do rio Jequitinhonha”.

Há alternativas para suprir a demanda por eletricidade, o que poderia amenizar os efeitos da estiagem no sistema elétrico nacional. “Estamos atravessando uma crise hídrica que ocorre de forma intensa e com uma periodicidade cada vez maior. A utilização de fontes de energia verdadeiramente limpas é a alternativa mais adequada sob o ponto de vista sustentável. Inclusive, a falta de planejamento para médio e longo prazo nos coloca enquanto sociedade, reféns de recorrentes crises hídricas”, analisa o professor Vinicius. Essa ausência de estudos da predição de eventos, inclusive, conecta o problema analisado no Delta do Jequitinhonha à realidade cotidiana do povo, pois os efeitos são sentidos especialmente pela população mais vulnerável. É por isso que o cientista reforça a necessidade de mais pesquisas que incluam a busca por soluções a médio e longo prazo para mitigar “os impactos negativos sociais, econômicos e ambientais e que, ao mesmo tempo, indiquem a produção de fontes de energia alternativas limpas, sob o ponto de vista sustentável e viável economicamente para a sociedade contemporânea e futura”.

Inovação metodológica

O caráter inovador da pesquisa é o uso de uma metodologia chamada datação absoluta por meio da Luminescência Opticamente Estimulada (LOE), empregada pela primeira vez no Delta do rio Jequitinhonha. O professor Vinicius conta que uma pesquisa anterior, realizada em 1982 pelo professor José Maria Landim Domingues, em colaboração com demais pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA), empregou uma metodologia de datação relativa com a técnica de carbono-14, abordando a técnica da datação relativa e também os fluxos aquosos e de sedimentos marinhos nas desembocaduras do rio Jequitinhonha e Pardo.

 

coleta LOE 02coleta LOE 06Conforme o professor Vinicius, aqueles estudos serviram de base para a discussão dos resultados obtidos na investigação mais recente, que usa uma técnica para obter a datação absoluta. Neste estudo, a equipe analisou amostras do tamanho dos grãos dos sedimentos, estas processadas e servindo de subsídio para a etapa de estatística computacional, e amostras da superfície das áreas de coleta, estas para estudo pela técnica da LOE. As análises compararam os resultados das amostras de cada uma das três áreas de coleta, permitindo chegar aos resultados apresentados anteriormente.

A pesquisa foi viabilizada pela parceria com o professor Archimedes Perez Filho, pesquisador 1 A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e professor titular do Instituto de Geociências (IG), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O envolvimento de pesquisadores coordenados pelo professor Perez Filho, no Laboratório de Geomorfologia e Análise Ambiental do IG e a contribuição dos pesquisadores de outras instituições parceiras, a nível nacional e internacional, foi essencial para a publicação do paper, cujos resultados parciais foram apresentados em um evento internacional sobre Geomorfologia do Quaternário em ambientes fluviais e costeiros, realizado de forma remota nos dias 07, 09 e 11 de dezembro de 2020 na UNICAMP.

“A nossa parceria com o laboratório de Geomorfologia e Análise ambiental do IG da UNICAMP e a utilização do laboratório de solos da Faculdade de Engenharia Agrícola (FEAGRI), também da UNICAMP, permitiram o suporte necessário ao desenvolvimento da pesquisa. Já o apoio financeiro aos trabalhos de campo, gabinete, laboratório e bolsas de estudo via Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Coordenação de Apoio de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e CNPQ foram fundamentais para o desenvolvimento das atividades”, conclui o professor Vinicius.

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