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19 de abril - Hora de "descobrir paraquedas"

Publicado: Domingo, 19 de Abril de 2020, 14h21 | Última atualização em Terça, 20 de Abril de 2021, 09h46 | Acessos: 1774

19 de abril

Hora de "descobrir paraquedas"

"tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios."

(Carlos Drummond de Andrade - O palácio de Moebius)

Em Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak  recorre à imagem do paraquedas para dizer do sonho "como exercício disciplinado" de busca pelas "orientações para as nossas escolhas do dia a dia". Algo de que precisamos mais do que nunca ante a derrocada por nós mesmos provocada do que ele chama de Antropoceno.

Na argumentação incisiva e delicada de Krenak, muitos mundos  e povos desapareceram no século XVI devido a epidemias, pelo simples contágio derivado do contato inédito entre humanos. Para tais povos, aquele foi o fim do mundo. E o desastre do Antropoceno, que constitui nossa "configuração mental", só tem nos conduzido a sucessivas quedas.

No cenário brasileiro contemporâneo, são inúmeros os desastres sociais e ambientais irreparáveis produzidos pelos modos de pensar e agir dessa "era", que não são compartilhados por todos/as, mas que a todos/as afeta.

Nesse nosso tempo de pandemia e de institucionalidades mais do que esgarçadas, as vulnerabilidades se excedem e o drama humano se aprofunda, mais para uns do que para outros devido às desigualdades. No contexto atual, as lutas dos povos indígenas brasileiros incluem reivindicações por direitos básicos como assistência médica, alimentos e equipamentos de proteção individual para enfrentar o coronavírus.

Tais frentes não são novidade, já que as conquistas indígenas estão sempre ameaçadas ou em constantes disputas. No entanto, negligências cotidianas tornam-se ainda mais ameaçadoras numa conjuntura de catástrofe sanitária, econômica, política e ambiental, quando recursos, atuação de órgãos públicos e fiscalização, já tão precários ou insuficientes, diminuem com a política de distanciamento físico e social.

COVID-19: descaso e exclusão

Entidades indígenas e apoiadoras têm denunciado, nos últimos dias, a situação de racismo institucional enfrentada pela falta de assistência à saúde em virtude do coronavírus. Também salientam a ausência de contabilização dos casos suspeitos e confirmados para COVID-19 de indígenas não-aldeados/as, o que os/as exclui de políticas públicas específicas e dos Boletins Epidemiológicos, contribuindo para a subnotificação, já evidente pela falta de testes.

Até sábado, 18/4, conforme informações coletadas em publicações de entidades indígenas, indigenistas e veículos de comunicação, haviam sido vitimados pelo coronavírus: um adolescente Yanomami de Roraima, um homem Tikuna do Amazonas, uma mulher Kokama do Amazonas, um homem Mura do Amazonas, uma mulher Borari de Alter do Chão/Pará, uma liderança daTerra Indígena Andirá-Marau (AM). Algumas dessas pessoas eram grandes lideranças. Ou poderiam ser.

Outra frente de luta é pelo direito ao isolamento. Na "disputa pelos últimos redutos onde a natureza é próspera" (Krenak), pessoas não-indígenas aproveitam-se das medidas de distanciamento físico para fazer avançar ainda mais seus projetos criminosos de expropriação e devastação sobre as terras indígenas que resultam em eco e etnocídios.

Para confirmar, nos últimos dias, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) alertou para o aumento expressivo da devastação ambiental na Floresta Amazônica no primeiro trimestre de 2020, ultrapassando qualquer taxa antecedente de desmatamentos. A partir dos dados disponibilizados pelo Inpe, o Instituto SocioAmbiental (ISA) calculou aumento de 113% nas derrubadas em terras indígenas em 2019 em comparação a 2018.

Outras violências

O relatório Conflitos no Campo Brasil - 2019, lançado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) no dia 17 de abril,  revela o número mais alto de vulnerabilidade das populações do campo às múltiplas modalidades de violências dos últimos 10 anos. E as comunidades mais atingidas são as tradicionais e os povos indígenas.

O documento comprova aumento de 23% nos conflitos no campo em 2019 em comparação com dados de 2018. A Amazônia foi o espaço mais atacado. No dia 18/4, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) publicou a notícia do assassinato do professor indígena Uru Eu Wau Wau Ari nas vizinhanças do município de Jaru, Rondônia, segundo assassinato de liderança em menos de 20 dias. A outra vítima foi Zezico Guajajara, no Maranhão, no dia 31 de março.

Ainda conforme o relatório da CPT, os conflitos por água atingiram números jamais registrados em 34 anos: 489, 77% a mais em relação a 2018. 82% dessas contendas  aconteceram em áreas  de comunidades tradicionais, e os estados da Bahia, Minas Gerais e Sergipe concentraram 61% dos conflitos pelo bem constitucionalmente previsto como garantia universal.

Apesar de todas as (o)pressões, do extermínio e de tantos enfrentamentos simultâneos, os povos indígenas estão em intenso movimento, mostrando articulação e fortalecimento. Dentre outras ações realizadas já sob ameaça do novo coronavírus, na segunda semana de março, lideranças dos povos do Sul e Extremo Sul da Bahia realizaram atos e marchas em Brasília, questionando o PL 191/2020 (que regulamenta a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em reservas indígenas), a MP 910/2019 (que promove a regularização fundiária de áreas da união, conhecida como MP da Grilagem) e a devolução de processos demarcatórios que já estavam em estágios avançados, como é o caso das Terras Indígenas Tupinambá de Olivença e Barra Velha.

UFSB

A mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da UFSB/CJA Márcia Senger, que também é professora, dá seu depoimento sobre o 19 de abril, para que possamos pensar a mais a respeito das condições de vida e de existência dos povos do Sul e Extremo Sul da Bahia:

"Em tempos de confinamento pela pandemia COVID-19, acordei pensando: que dia é hoje? Hoje é 19 de abril de 2020, "Dia do Índio". Qual o significado que esse dia tem para nós, brasileiros/as? Será que é só mais um dia daqueles que lembramos como algo que existiu no passado ou, ainda, como algo distante de nossas vidas? Vivo em Ilhéus, Bahia, há 19 anos e acompanho ou pouquinho a luta e a resistência para existir dos povos indígenas que vivem nessa região e, acreditem, são muitos e de várias etnias. Só para saber, aqui na região sul, em Ilhéus, Una, Buerarema vivem os Tupinambá; em Pau Brasil, Camacã, Itajú do Colônia e Camamu vivem os Pataxó Hã Hã Hãe. Na região do extremo sul, entre os municípios de Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Itamaraju, Prado e Eunápolis vivem os Pataxó e, em Belmonte, algumas famílias Tupinambá. Isso porque não citei outras etnias do norte e oeste da Bahia: Tuxá, Kiriri, Tumbalalá, Tuká, Payayá... Mas o que esses povos indígenas têm a nos dizer, ou melhor, nos ensinar sobre como resistir à violência e ao etnocídio? Na minha opinião, penso que eles/as nos ensinam que (re)existir não é uma opção de vida, e sim uma necessidade de sobrevivência. A luta pelo Território originário é, sem dúvida, a de maior valor cultural. Mas, até quando iremos expressar nossa indiferença para com eles/as? Por que é tão difícil para nós aceitarmos esse outro como ser igual, mas diferente em suas especificidades? Que possamos refletir neste dia e aprender a conviver com respeito com os nossos iguais/diferentes."

A Diretoria de Sustentabilidade e Integração Social (PROSIS/UFSB) solidariza-se com as lutas das comunidades indígenas pela demarcação das terras, pela preservação das culturas e repudia todas as formas de violência contra os povos do campo, da terra, das águas e das florestas. Informa que, a partir de solicitação encaminhada pelo Comitê Popular Solidário da Bahia no dia 17/4, na UFSB está em processo a articulação de uma rede de cooperação entre diferentes setores e também com pessoas e entidades externas à comunidade acadêmica com o objetivo de pensar estratégias para viabilizar uma campanha responsável de coleta de alimentos para as comunidades indígenas do Sul e Extremo Sul da Bahia como forma de apoio concreto e emergencial no combate à fome. Acompanhe informações nos próximos dias em nossos canais.

Paraquedas antes do céu cair - de novo

"Os xapiri [em sua maioria, imagens dos ancestrais animais míticos] já estão nos anunciando tudo isso, embora os brancos achem que são mentiras. Com a imagem de Omama, repetem para eles a mesma coisa: 'Se destruírem a floresta, o céu vai quebrar de novo e vai cair na terra!'. Mas os brancos não ouvem. Sem ver as coisas com a yãkoana, a engenhosidade deles com as máquinas não vai torná-los capazes de segurar o céu e consolidar a floresta. Mas eles não têm medo de desaparecer, porque são muitos. Contudo, se nós deixarmos de existir na floresta, jamais poderão viver nela; nunca poderão ocupar os rastros de nossas casas e roças abandonadas. Irão morrer também eles, esmagados pela queda do céu. Não vai restar mais nada. Assim é. Enquanto existirem xamãs vivos, eles conseguirão conter a queda do céu. Se morrerem todos, ele vai desabar sem que nada possa ser feito, pois só os xapiri são capazes de reforçá-lo e torná-lo silencioso quando ameaça se quebrar. É dessas coisas que nós, xamãs, falamos entre nós. O que os brancos chamam de futuro, para nós, é um céu protegido das fumaças de epidemia xawara e amarrado com firmeza acima de nós!"

Davi Kopenawa - A queda do céu: palavras de um xamã yanomami (2015, p. 494).

Para acompanhar o Abril Indígena, sugerimos:

Eventos virtuais:

O que: 13ª edição do Festival Curta Taquary

Quando: 22 a 25/4

Onde: curtataquary.com.br

O que: Semana da Resistência e Consciência Indígena

Quem: APOINME (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo).

Quando: 26 a 30/4.

Onde: Canal YouTube Apoinme Oficial e Facebook Apoinme Brasil

O que: Povos em Movimento: as conquistas indígenas e o protagonismo social

Quando: 21/4

Onde: IFBA - Porto Seguro. Link: https://conferenciaweb.rnp.br/webconf/ifba-ps

Participação do Prof. Edson Kayapó, do IFBA/PS e do PPGER/CSC

Leituras:

E-book gratuito: Ailton Krenak. O amanhã não está à venda (2020).

Protagonismos Indígenas: (Re)Existências Indígenas e Indianidades, por Casé Angatu e Ayra Tupinambá. Capítulo do livro Índios no Brasil: vida, cultura e morte (?) - organizado por Maria Luiza Tucci Carneiro e Mirian Silva Rossi. Editora Intermeios Cultural (2019).

Professores/as Tupinambá de Olivença (orgs.) - Memória viva dos Tupinambá de Olivença (2007).

Edson Kayapó (texto); Maurício Negro (ilustrações). Projetos e presepadas de um curumim na Amazônia (2020).

Ailton Krenak. Ideias para adiar o fim do mundo (2019).

Davi Kopenawa e Bruce Albert. A queda do céu - Palavras de um xamã yanomami (2015).

Daniela Fernandes Alarcon. O retorno da terra - as retomadas na aldeia Tupinambá da Serra do Padeiro, sul da Bahia (2019).

Vídeos:

Tupinambá subiu a serra (2019)

https://www.youtube.com/watch?v=ujKkY8SsRgI

Mensagens da Terra (2020)

https://www.youtube.com/watch?v=E8mIRNrPPGg

 

Marâiwatsédé - o resgate da terra (2018).

https://www.youtube.com/watch?v=r5i3i8n6w-0

 

Encantadas - território, nosso corpo, nosso espírito (2019).

https://www.youtube.com/watch?v=3rK7fqvq71w

20 ideias para girar o mundo - Ailton Krenak

https://youtu.be/f48HAu0bNPc

A imagem foi gentilmente cedida pela responsável pela Creche Municipal Indígena Tupinambá Oka Katuana (Olivença/Bahia), Cristiane Amanary. A pintura, na parede da escola, foi feita por Michelle Santos Silva, mulher não-indígena, mãe de crianças que estudaram na Oka Katuana e solidária à pauta indígena. Representa o cuidado e a proteção da mãe indígena por meio da representação da figura da professora da creche Nataly Temireko Paraguaçú com seus filhos e a diversidade do povo tupinambá.

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Agradecemos a colaboração de Márcia Senger, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da UFSB/CJA.

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